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Por que a mente tenta apagar experiências dolorosas? Trauma, memória e a cura pela palavra

Mulher sentada próxima à janela, em reflexão silenciosa, representando memória e sofrimento emocional

Existem experiências tão dolorosas que parecem impossíveis de suportar. Diante delas, a mente pode encontrar uma maneira de continuar: afastar determinadas lembranças, sentimentos ou experiências da consciência.

Mas esquecer significa realmente deixar para trás?

Na psicanálise, sabemos que aquilo que não conseguimos elaborar nem sempre desaparece. Uma experiência dolorosa pode permanecer presente de outras formas, aparecendo em angústias, medos, comportamentos ou sentimentos que, muitas vezes, a própria pessoa não consegue compreender.

Foi justamente essa reflexão que me veio ao assistir ao filme As Vantagens de Ser Invisível.

Lançado em 2012 e baseado no livro de Stephen Chbosky, o filme parece, inicialmente, contar apenas a história de um adolescente tentando encontrar seu lugar no mundo. Mas, aos poucos, revela questões muito mais profundas.

Aceitação, amizade, sexualidade, bullying, violência, depressão, perdas e traumas atravessam a construção da identidade dos personagens.

Charlie, o protagonista, acaba de perder seu melhor amigo, que morreu por suicídio. Em meio ao luto, ele tenta seguir a vida e encontra acolhimento em um grupo de jovens considerados "desajustados" ou fora dos padrões da escola.

É nesse processo que o filme nos apresenta algo muito humano: a possibilidade de sentimentos contraditórios coexistirem dentro de nós.

Podemos amar e sentir raiva. Querer seguir em frente e, ao mesmo tempo, permanecer presos ao passado. Desejar proximidade e também ter medo dela.

Na psicanálise, chamamos isso de ambivalência.

Quando uma lembrança retorna

Mulher observando fotografias antigas, evocando memórias do passado

Ao longo da história, percebemos que Charlie carrega experiências da infância que não consegue compreender completamente.

Uma delas envolve sua tia, por quem nutria um grande afeto e que havia morrido anos antes.

Durante um encontro amoroso, um gesto aparentemente comum desperta nele uma lembrança que estava afastada de sua consciência. Charlie começa, então, a entrar em contato com uma experiência traumática de abuso sexual sofrida durante a infância.

A pessoa que ele idealizava e amava também havia sido responsável por seu sofrimento.

A lembrança retorna de maneira devastadora. Charlie entra em uma intensa crise psíquica e precisa ser internado.

É a partir desse momento que o personagem começa a conseguir falar sobre aquilo que viveu.

E essa passagem do filme nos ajuda a pensar em uma questão importante:

O que acontece com aquilo que sentimos quando não conseguimos colocar em palavras? O que tentamos esquecer realmente desaparece?

Em seus primeiros estudos sobre os mecanismos de defesa, Freud observou que determinadas experiências, representações ou sentimentos poderiam provocar um sofrimento tão intenso que o sujeito tentaria afastá-los da consciência.

Mas esse "esquecimento" não significa necessariamente que a experiência deixou de existir psiquicamente.

Aquilo que foi afastado pode continuar produzindo efeitos.

Às vezes, a pessoa não consegue explicar por que determinada situação provoca tanta angústia. Não entende por que repete alguns comportamentos, por que certas relações despertam reações tão intensas ou por que determinados sentimentos aparecem sem uma causa aparentemente clara.

Isso não significa que exista necessariamente uma lembrança escondida esperando para ser descoberta. O funcionamento psíquico é muito mais complexo.

Mas significa que nossa história deixa marcas — inclusive aquelas que ainda não conseguimos compreender.

Nossa história deixa marcas — inclusive aquelas que ainda não conseguimos compreender.

A "ficha cai": o que é ab-reação?

Um dos conceitos que o filme me fez recordar foi o de ab-reação.

O termo foi utilizado para descrever uma descarga emocional ligada à recordação de um acontecimento traumático.

A palavra catarse, associada a esse processo nos primeiros estudos de Freud e Josef Breuer, tem origem grega e remete à ideia de purificação ou liberação.

Nos primeiros momentos da psicanálise, acreditava-se que trazer determinadas experiências à consciência e permitir a expressão do afeto ligado a elas poderia aliviar alguns sintomas.

Com o desenvolvimento da teoria psicanalítica, entretanto, o trabalho analítico tornou-se muito mais amplo.

Freud abandonou progressivamente a hipnose e o método catártico, e a associação livre passou a ocupar um lugar fundamental.

Mais do que simplesmente provocar uma descarga emocional ou encontrar uma lembrança esquecida, a análise passou a privilegiar a fala e a possibilidade de cada sujeito construir sentidos para aquilo que viveu.

Duas mulheres conversando em ambiente acolhedor, representando o processo terapêutico e a escuta analítica

Lembrar não é o mesmo que elaborar

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes.

Entrar em contato com uma lembrança dolorosa não significa automaticamente superar aquilo que aconteceu.

Lembrar não é necessariamente elaborar.

No filme, aquilo que estava afastado retorna de maneira abrupta e provoca uma ruptura na vida de Charlie. Ao mesmo tempo, abre a possibilidade de que ele finalmente consiga falar sobre sua experiência.

O processo analítico não deve ser entendido como uma busca por uma lembrança escondida ou como uma tentativa de simplesmente "colocar tudo para fora".

A psicanálise oferece um espaço para que a pessoa possa falar livremente sobre suas lembranças, sentimentos, relações, contradições e repetições.

E, por meio dessa fala, aquilo que antes aparecia apenas como sofrimento ou sintoma pode começar a adquirir novos sentidos.

Quando conseguimos dizer algo sobre aquilo que nos aconteceu

Talvez seja justamente aí que aquilo que costumamos chamar de "a ficha cair" possa acontecer.

Não simplesmente quando lembramos de alguma coisa.

Mas quando conseguimos olhar para nossa própria história e começar a compreender aquilo que antes não podia ser pensado ou colocado em palavras.

Nossa história não pode ser apagada. E a psicanálise também não promete eliminar todas as dores que vivemos.

Mas a palavra pode abrir caminhos para que estabeleçamos uma nova relação com aquilo que nos atravessou.

Às vezes, compreender por que sentimos, escolhemos ou repetimos determinados comportamentos é o início de uma transformação.

Você se identificou com esse texto?

Existem sofrimentos, sentimentos e padrões que podem ser difíceis de compreender sozinhos. O processo psicanalítico oferece um espaço de escuta e reflexão para que você possa falar sobre sua história e construir novos sentidos para aquilo que está vivendo.

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